Filipa Martins: «Dar nome a um gesto técnico deu motivação»

Ginasta em entrevista a Record

• Foto: EPA
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Record – As lesões fazem parte da vida de um ginasta e sentiu isso nos últimos Jogos. Como soube lidar com essa situação nestes 4 anos?

Filipa Martins – Na altura foi bastante frustrante, porque aconteceu relativamente próximo dos Jogos no Rio de Janeiro. É o sonho de qualquer atleta chegar a essa competição e foi frustrante perceber que não iria estar no meu melhor nível. Foi um período duro, mas consegui acalmar-me e pensar ‘o Mundo não vai acabar aqui’. Há mais vida para a frente e faço os possíveis para estar no meu melhor. Com 25 anos já sou quase velhinha na ginástica [risos]. Ultimamente veem-se ginastas mais velhos a treinar, mas depende muito do corpo e da força mental. Muitas vezes as lesões também têm peso. A carreira de um ginasta depende muito da forma física e das lesões.

R – Recentemente tem merecido destaque por ter dado o seu nome a um gesto técnico inédito no Campeonato da Europa. Estava confiante de que o gesto ia resultar depois de o ter preparado durante nove meses ou receava que pudesse existir alguma falha?

FM – Receio temos sempre, ainda por cima por ser algo novo e que ia fazer logo na primeira competição após a paragem. Não sabia sequer se ia correr bem... Estive nove meses a treinar o movimento e fui ganhando confiança. Se acertamos tudo numa semana de treino, é provável que saia bem na prova. Mas claro que havia sempre risco. Em alguns treinos caía e noutros corria melhor. Estava confiante e graças a Deus correu bem.

R – Como surgiu a ideia de inventar esse gesto técnico?

FM – Na verdade, não pensamos em algo novo. Estávamos já a treinar um elemento simples, sem ser o ‘Martins’, e a pandemia foi um fator que ajudou. Quando estamos sempre em competição, não temos oportunidade de fazer algo novo com tempo e calma. E isso aconteceu de uma forma descontraída. Estávamos no treino e pensámos: ‘Vamos experimentar algo diferente.’ Experimentámos várias vezes e passado um mês fomos ver quanto é que o gesto poderia valer no código. Reparámos que não existia. E poder dar o meu nome a um gesto deu-me ainda mais motivação.

R – Como reagiram as suas adversárias e pessoas da modalidade?

FM – Acho que não estavam a contar, até porque estivemos um ano sem treinar e algumas ginastas desmotivam. Por Portugal ser um país pequenino e que não é tão falado a nível da ginástica, ninguém contava com isto. Recebi mensagens de atletas muito boas, que costumam ficar acima de mim, algo que não esperava. Foi muito bom sentir o carinho e reconhecimento dessas ginastas.

R – Podemos esperar um novo gesto técnico para Tóquio?

FM – O outro demorou nove meses... Agora em três acho que não conseguia outro. Depende muito do tipo de exercício e da ginasta. Eu, por exemplo, consigo decorar de forma rápida os movimentos. Costuma demorar cerca de quatro meses para ser aperfeiçoado, mas este último era muito complexo. Também fomos com muita calma, porque tínhamos tempo e não haviam competições. Mas isso depende muito do atleta...

R – Foi difícil manter em segredo?

FM – Não sei se é um preconceito meu mas, por ser Portugal, acho que podemos mostrar o que quisermos porque há sempre melhores do que nós. Mas guardei esse gesto para que ninguém copiasse.

R – Vê-se como uma referência na ginástica em Portugal? Os mais novos pedem-lhe conselhos?

FM – Sim. Ainda por cima, como ginasta mais velha da Seleção Portuguesa, sinto que tenho o dever de transmitir que nada se consegue atingir sem esforço, dedicação e trabalho. Acho que as novas gerações não sabem tanto o que custa trabalhar para conseguir algo. Tento passar essa mensagem de que nada é fácil. Felizmente, graças à ginástica levo grandes aprendizagens e vivências para o resto da vida e tento transmitir isso aos mais novos. 

Por Filipe Balreira
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