O surreal Brasil-Argentina: perguntas e respostas para entender o que aconteceu e os próximos passos
Encontro de qualificação sul-americana para o Mundial foi suspenso aos 6 minutos pelas autoridades sanitárias
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Os amantes desporto-rei em todo o mundo aguardavam com expectativa mais um Superclássico entre Brasil e Argentina, mas o que se assistiu no domingo foi tudo menos futebol. Cenas nunca antes vistas numa partida que teve apenas seis minutos e... muita polémica. Record explica-lhe o que sucedeu em São Paulo e ainda o que pode esperar-se nos próximos dias sobre um jogo que ficará na história do futebol sul-americano e mundial. Mesmo que pelas piores razões.
- Porque foi suspensa a partida?
- Porque foi suspensa a partida?
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Seis minutos após o apito inicial do jogo disputado em São Paulo e referente à 6.ª jornada da fase de qualificação sul-americana para o Mundial’2022, elementos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da polícia brasileira invadiram o relvado e exigiram a deportação de quatro jogadores argentinos que atuam em Inglaterra por alegadamente terem violado as regras sanitárias da Covid-19 no Brasil. Os jogadores da Argentina abandonaram o campo e, após alguns minutos, o árbitro venezuelano Jesús Valenzuela e, posteriormente, a CONMEBOL, decidiram suspender a partida.
- Quais os jogadores visados?
A situação insólita (e inédita) foi ‘provocada’ por quatro jogadores argentinos que jogam em clubes ingleses. Dois deles (o médio Giovani Lo Celso e o central Cristián Romero) atuam no Tottenham, orientado pelo técnico português Nuno Espírito Santo. Os outros, o guarda-redes Emiliano Martínez e o extremo Emiliano Buendía, jogam pelo Aston Villa. Note-se que deste quarteto apenas Martínez, Lo Celso e Romero, que haviam sido opções iniciais do seleccionador Lionel Scaloni para a partida, estavam em campo quando as autoridades brasileiras entraram em acção, enquanto Buendía assistiu a tudo… desde a bancada.
- Os motivos das autoridades brasileiras?
O Reino Unido é um dos quatro países (além de África do Sul, Irlanda do Norte e Índia) na ‘lista vermelha’ definida pelo Brasil, que obriga qualquer cidadão que chega a território brasileiro e que tenha saído de um desses países nos últimos 14 dias a cumprir quarentena. A regra aplica-se mesmo que, pelo meio, a pessoa tenha estado num país que não pertença à referida 'lista vermelha’. E essa situação sucedeu precisamente com os quatro jogadores argentinos, pois dias antes haviam estado na Venezuela a defrontar a seleção local. Alegadamente, estes não informaram as autoridades dessa situação quando preencheram um formulário no momento em que a seleção argentina aterrou no Brasil e por isso foram autorizados a entrar no país sem cumprir a quarentena.
- Autoridades só ‘descobriram’ irregularidades na hora do jogo?
Não. Durante a tarde de domingo, poucas horas antes do início da partida, as autoridades brasileiras surgiram no hotel onde estava instalada a seleção alviceleste e nesse momento já tinham ordens da Anvisa para deportar os quatro jogadores. Nesse momento, os responsáveis da Federação Argentina entraram em contacto com os dirigentes da CONMEBOL e o organismo que tutela o futebol sul-americano conseguiu desbloquear a situação, permitindo que os atletas em causa saíssem da unidade hoteleira rumo à Arena Corinthians, estádio que recebeu a partida.
- Qual a posição da CONMEBOL?
Após o árbitro declarar a suspensão da partida, a CONMEBOL ‘limitou-se’ a dar conta disso mesmo e alheou-se de quaisquer responsabilidades e esclareceu, em comunicado, que "o árbitro e o delegado vão enviar o relatório ao Comité Disciplinar da FIFA, que determinará os passos a seguir". "As eliminatórias do Mundial são uma competição da FIFA. Todas as decisões relativas à sua organização e desenvolvimento são da competência exclusiva daquela instituição", acrescentou a CONMEBOL.
- O que pode decidir a FIFA?
A FIFA deverá tomar uma posição oficial até quarta-feira, 72 horas após a suspensão da partida. Nesta altura existem três cenários em cima da mesa. O primeiro, caso a FIFA entenda que a Argentina teve de abandonar o jogo por motivos de força maior, passará pela retoma do jogo a partir do minuto em que foi interrompido e numa data a definir. Caso seja esta a decisão, a partida não poderá ser retomada nos próximos dias, já que Brasil e Argentina têm compromissos agendados na presente ‘data FIFA’ , frente a Peru e Bolívia, respectivamente.
Se a interpretação da FIFA for de que a Argentina abandonou o campo e recusou-se a voltar para disputar o jogo, será atribuída a vitória por 3-0 e os três pontos ao Brasil e uma multa à seleção alviceleste, que em último caso arriscaria ser suspensa da qualificação para o Mundial. Mas o mesmo castigo poderá ser aplicado… ao Brasil, caso a FIFA entenda que a Argentina deixou o campo devido à entrada de agentes do governo brasileiro no relvado e que não existiam condições para continuar a partida.
